Moda sustentável: como o upcycling está virando negócio no Espírito Santo
No Espírito Santo, a moda sustentável está em alta com mulheres transformando roupas esquecidas em novas peças através do upcycling. Essa prática não só prolonga a vida útil das roupas, mas também se torna uma estratégia de negócio e identidade em tempos de desperdício (quem diria que o armário poderia ser uma mina de ouro?).

O que acontece com aquelas roupas que a gente esquece no fundo do armário? Uma calça jeans que já não serve mais, uma camisa que não combina mais com o estilo ou um vestido que só foi usado uma vez. O destino parece óbvio: descarte. Mas, calma, nem tudo precisa acabar assim. No Espírito Santo, um grupo de mulheres empreendedoras está transformando essas peças esquecidas em novas histórias. E o nome dessa mágica é upcycling, uma prática que reaproveita roupas e tecidos de forma criativa, sem destruir o material original.
O cenário da moda sustentável no Brasil
A realidade é que o Brasil gera cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, mas apenas 20% desse volume é reciclado ou reaproveitado, de acordo com dados do Sebrae e do relatório Fios da Moda 2023. O restante? Bem, vai parar no lixo, muitas vezes de forma inadequada. Em um mundo onde a moda é marcada pela velocidade e pelo excesso, o upcycling deixou de ser uma escolha estética e virou uma estratégia necessária. A economia circular, que busca reduzir desperdícios e manter materiais em uso por mais tempo, é uma saída viável.
Mulheres empreendedoras e o upcycling
No Espírito Santo, essa transformação está sendo costurada por mulheres que viram no upcycling uma forma de empreender, construir identidade e, claro, transformar criatividade em renda. Um exemplo disso é a marca Mira, que começou de forma despretensiosa entre amigas. Daniela Santos Neves, Sofia Viana Ferracioli e Gabriella Vasconcelos, as fundadoras, têm trajetórias distintas, mas um objetivo em comum: criar roupas autorais a partir de peças esquecidas.
Na Mira, quase tudo começa em brechós da Grande Vitória ou com doações de amigos e familiares. O processo é mais do que costurar; é um exercício de imaginação. Um vestido parado ganha novos recortes, uma camisa larga se transforma em algo totalmente diferente. O que elas fazem é criar roupas únicas, cada uma com sua própria história, fugindo da repetição comum da indústria da moda.
“Todas as peças são únicas. Nunca vai existir uma exatamente igual à outra, porque estamos sempre adaptando os materiais e criando algo novo.”
Esse toque de exclusividade atrai um público que busca mais do que roupas; eles querem identidade. As “Divas”, como as sócias chamam suas clientes, são majoritariamente mulheres e pessoas LGBTQIA+ que valorizam peças que expressem quem são. Mas nem tudo são flores. As sócias enfrentam um preconceito arraigado em relação às roupas reaproveitadas, que muitas vezes são vistas como inferiores. “Muita gente não entende o valor do processo criativo e do trabalho manual que existe por trás do upcycling”, explica Daniela.
Outras iniciativas e desafios
Outra marca que segue a mesma filosofia é a CriaUpcycling, fundada pela figurinista e costureira Joelma Silva. Desde 2020, ela transforma roupas usadas e tecidos esquecidos em peças urbanas e autorais. A proposta dela é produzir uma moda menos descartável e mais conectada à identidade de quem veste. O processo criativo na Cria raramente começa com uma ideia pronta; muitas vezes, o próprio tecido dita o caminho da peça.
As vendas ocorrem principalmente pelas redes sociais, com encomendas e drops exclusivos. O crescimento da marca foi orgânico, impulsionado pela internet e pela busca de consumidores por roupas autênticas. No entanto, Joelma também enfrenta desafios, como a resistência de quem ainda associa o reaproveitamento a algo de menor valor. “Reutilizar não significa repetir, mas criar algo completamente diferente”, afirma.
Karol Abouts é outra empreendedora que encontrou no upcycling uma forma de expressão. Sua marca surgiu entre 2016 e 2017, em um momento em que ela buscava na arte uma maneira de lidar com a ansiedade. Inspirada por conteúdos sobre customização e reaproveitamento, Karol começou a transformar peças de bazares em criações autorais, sempre se deixando levar pela observação e pelas referências do cotidiano.
“Me inspiro em tudo. Em todas as coisas bonitas do mundo.”
As vendas de Karol acontecem pela internet e em feiras, aproximando a marca de um público que valoriza peças exclusivas e feitas em pequena escala. O upcycling, para ela, é mais do que um modelo de negócio; é uma forma de resistir ao consumismo desenfreado e à produção em massa.
Insights para seu brechó
- Separe peças que não estão sendo usadas e teste o upcycling: transforme uma camisa antiga em uma bolsa ou um vestido em uma saia. O que parece ser lixo pode se tornar um item de desejo.
- Monte uma arara com roupas autorais e únicas, inspiradas no conceito da Mira. Isso pode atrair clientes que buscam exclusividade e identidade nas peças.
- Pesquise e compartilhe informações sobre a importância do upcycling nas suas redes sociais, ajudando a educar seu público sobre o valor das roupas reaproveitadas.


