Sustentabilidade

O lado obscuro da importação de roupas de segunda mão: o negócio ilícito por trás da moda sustentável

O lado obscuro da importação de roupas de segunda mão: o negócio ilícito por trás da moda sustentável

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O lado obscuro da importação de roupas de segunda mão: o negócio ilícito por trás da moda sustentável

A compra de roupas de segunda mão se tornou uma das formas mais populares de se aproximar de uma moda mais sustentável. No entanto, a real é que, no Peru, nem toda essa comercialização é realmente uma economia circular.

Nas redes sociais, centenas de páginas oferecem peças "vintage", roupas americanas ou itens de segunda mão com a ideia de dar uma nova vida a elas, ajudando o planeta e evitando a sobreprodução. Mas o que acontece antes de uma jaqueta ou uma camiseta usada chegar a uma feira, uma loja ou até mesmo a um live no TikTok?

O que está por trás da moda sustentável?

Um estudo apresentado pelo Observatório de Luta contra o Comércio Ilegal da Sociedade Nacional de Indústrias (SNI) e pelo Instituto de Criminologia revelou que uma parte significativa da roupa usada que entra no Peru faz parte de uma cadeia de tráfico ilícito, fraude documental, corrupção e comercialização ilegal.

A pesquisa indica que essa cadeia é composta por 11 elos, 32 atividades e 88 tarefas que conectam a roupa descartada em países desenvolvidos com sua distribuição no mercado peruano.

Com um mercado têxtil mundial que dobrou sua produção devido à moda rápida, estima-se que cerca de 87% da produção têxtil mundial seja descartada diretamente em aterros sanitários ou incinerada. Parte dessa roupa chega ao Chile, um dos poucos países da América do Sul que permite a importação comercial legalmente, recebendo anualmente 136.095 toneladas de roupas de segunda mão.

Mas nem toda essa roupa tem uma segunda vida. Um impressionante 70% das peças que chegam ao Chile é descartado imediatamente no deserto do Atacama. O restante é vendido no mercado chileno ou enviado para outros países, como o Peru e a Bolívia.

As roupas não entram apenas pelo Chile, mas também pela Bolívia, através de Desaguadero (Puno), além de outras rotas fronteiriças irregulares. Uma vez dentro do país, os fardos passam por centros de acopio, classificação e distribuição antes de chegarem aos mercados físicos e também a compradores por meio de plataformas digitais.

Contrabando e suas implicações

O crescimento desse contrabando se reflete nos controles aduaneiros. Marilú Llerena, intendente nacional de Desenvolvimento e Inovação Aduaneira da Sunat, destacou que as apreensões de roupas usadas aumentaram 29% até agora em 2026.

É importante notar que a importação de roupas usadas com fins comerciais é proibida no Peru pela Lei 28514, permitindo apenas doações. Portanto, para entrar no país, as roupas são frequentemente disfarçadas como doações humanitárias de ONGs ou declaradas como "trapos de descarte" para evitar controles.

Embora esse ingresso ilegal das peças possa ser visto apenas como contrabando, Nicolás Zeballos, diretor de Assuntos Públicos do Instituto de Criminologia, alerta que o problema é ainda mais complexo. As rotas utilizadas para o transporte dessas roupas coincidem com as de outras economias ilegais.

"Todos os percursos que identificamos nas zonas de fronteira onde esses produtos entram estão também associados a outros mercados ilegais, como o tráfico de mercúrio, a saída de ouro, a saída de cocaína, o tráfico de armas e de pessoas. Os mesmos circuitos estão vinculados a isso. Há uma sobreposição de fatores que faz entender que não se trata apenas de roupas baratas, mas de roupas que foram traficadas junto com outros produtos ilegais", comentou Zeballos.

Assim, não existe necessariamente uma organização dedicada exclusivamente ao tráfico de roupas usadas; são os mesmos operadores e circuitos logísticos que participam de várias atividades ilícitas.

Economia circular ou falsa economia?

A pesquisa também questiona se todo esse circuito pode ser realmente considerado uma economia circular. Zeballos explicou que a roupa passa por múltiplos processos de seleção.

Atualmente, o estudo identificou 16 pontos ao longo da cadeia de suprimento de roupas usadas no Peru onde se gera lixo, desde a travessia da fronteira, o acúmulo, a distribuição até o comércio.

Segundo a pesquisa, 40% das peças que chegam a portos do sul global terminam em aterros uma semana depois. Além disso, de um fardo de 200 peças, 95% pode acabar sendo descartado. Por exemplo, uma jaqueta que chega a uma feira pode levar ao descarte de outras 50 que estavam em más condições, manchadas ou rasgadas.

"Existem redes e sistemas criminosos que aproveitaram a narrativa da economia circular para aparentar que fazem parte desses circuitos e enviar roupas que não são recicláveis, que não são reutilizáveis, que são basicamente resíduos", destacou Zeballos.

A ideia de que a segunda mão garante, por si só, uma economia circular é uma ilusão, pois uma parte significativa do conteúdo dos fardos acaba se transformando novamente em lixo.

Por que proibir e não regular?

Em meio ao movimento por uma economia circular, existem outros países que permitem a importação de roupas usadas sob determinadas condições, principalmente em nações da América Central, como México e Nicarágua. Mas por que o Peru opta por uma proibição total em vez de uma regulação?

Para Zeballos, abrir essa porta não resolveria o problema, pois a roupa que chega ao país não é necessariamente reutilizável e há um risco sanitário associado a peças cujo origem, tratamento e condições de armazenamento não estão suficientemente controlados.

Carlos Casas, economista da Universidade do Pacífico, acredita que, embora regular a importação em vez de proibi-la seja uma possibilidade em outros países, no contexto peruano, isso poderia facilitar ainda mais a entrada irregular.

"Sempre se poderia [permitir], mas pela forma como o país é, abriria outra porta: traria uma parte pela via regular e muito mais pela via irregular. Se já com a proibição temos isso, não acredito que removendo a proibição teríamos uma mudança significativa se não houver controle", explicou Casas.

Por enquanto, a SNI já enviou oficialmente uma nota diplomática ao governo chileno para iniciar uma conversa sobre a eliminação da possibilidade de importar roupas usadas e coordenar com a Aduana de Iquique para seguir a rota das peças que entram no território e acabam chegando ao Peru.

No entanto, Casas acrescenta que uma proibição total também não garante que o problema desapareça.

"Se fechássemos a entrada por Iquique, ainda assim haveria fluxo, porque encontrariam alguma outra fonte. Precisamos cortar esse financiamento, reforçar as fronteiras e ter maior controle fronteiriço, isso ajudaria bastante a cortar o incentivo", concluiu.

Impacto na indústria têxtil

Agora, a pergunta que não quer calar é: qual o impacto disso tudo na indústria têxtil? As respostas podem ser complexas, mas o que está claro é que a discussão sobre a verdadeira sustentabilidade da moda e os caminhos para alcançá-la ainda está longe de ser resolvida.


  • Separe suas peças que não estão vendendo e monte uma seção de "vintage" ou "segunda mão" no seu brechó, mas fique atenta à procedência.
  • Teste a ideia de um bazar ou evento de troca de roupas com outras donas de brechó na sua região, promovendo uma economia mais circular.
  • Pesquise sobre as leis de importação de roupas usadas e avalie como isso pode afetar seu negócio, se você estiver pensando em expandir suas fontes de produtos.
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