Moda na Europa: fim da destruição de estoques e novas regras sustentáveis
A partir de julho, marcas de moda na União Europeia não poderão mais destruir estoques não vendidos e precisarão buscar alternativas, o que pode impactar a superprodução e a sustentabilidade no setor. Essa mudança pode inspirar práticas semelhantes no Brasil, abrindo espaço para brechós e revendas (quem diria que a moda poderia ser tão ecológica?).

A partir de julho, as grandes marcas de moda que atuam na União Europeia vão ter que mudar a forma como lidam com os estoques encalhados. A nova norma proíbe a destruição de roupas, calçados e acessórios não vendidos e exige que essas empresas encontrem alternativas para dar um destino mais sustentável a esses produtos. E, olha, essa mudança vem com um peso significativo: segundo a Comissão Europeia, a destruição de têxteis não vendidos representa entre 4% e 9% da produção total, liberando cerca de 5 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera a cada ano — um número que equivale a todas as emissões da Suécia em 2021. Um baita impacto, não é mesmo?
Impacto nas grandes marcas
Essa nova regra não está apenas atingindo os gigantes do fast-fashion, mas também grifes de luxo como Louis Vuitton e Gucci, que tradicionalmente queimavam ou trituravam produtos para manter a exclusividade. Agora, com a proibição, essas marcas vão ter que repensar suas estratégias. A norma faz parte do Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR), que entra em vigor em julho de 2024.
Fernanda Simon, diretora executiva do Instituto Fashion Revolution Brasil, considera essa decisão um passo importante rumo a um modelo de negócios mais circular e sustentável. Segundo ela, a medida pressiona as marcas a repensarem o planejamento de coleções e a gestão de estoques, enfrentando um dos grandes problemas do setor: a superprodução. E, com a indústria da moda respondendo por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, a queima de estoques se tornou "ambiental e socialmente inaceitável".
O que muda para as marcas de luxo?
Para as marcas de alto padrão, essa proibição significa uma reviravolta. Durante décadas, grupos como LVMH e Kering destruíram produtos para garantir escassez e valor. Mas, como manter essa exclusividade sem recorrer à incineração? Fernanda sugere que a resposta está em planejamento e criatividade. "A proibição tende a impulsionar marcas de luxo a desenvolver estratégias mais assertivas de planejamento e produção, como coleções mais enxutas e produção sob demanda", explica.
Ela também sugere uma mudança de perspectiva: por que não criar coleções exclusivas a partir de peças já produzidas, convidando novos designers ou artistas para reinterpretá-las? Isso poderia preservar o caráter de exclusividade e ainda agregar valor às peças. Em um cenário de desafios climáticos e sociais, essa transformação deve ser encarada como uma oportunidade de atuação mais conectada com a realidade.
Desafios da reciclagem
Apesar das boas intenções, a transição para um modelo circular enfrenta barreiras. Fernanda aponta que são necessários investimentos em pesquisa e tecnologia, já que os processos de reciclagem na moda tendem a ser complexos. E a origem do problema muitas vezes está no design. "A maior parte dos produtos disponíveis hoje no mercado não foi criada pensando em seu ciclo de vida, o que torna o desafio da reciclagem ainda maior", explica.
Entre as iniciativas que já mostram viabilidade, ela menciona a Cotton Move, que trabalha com grandes varejistas brasileiros para transformar resíduos têxteis em novas matérias-primas. "Soluções já existem, mas precisam ganhar escala", resume. Além disso, a executiva defende que tanto empresas quanto o poder público criem estratégias para viabilizar a circularidade em larga escala, incluindo sistemas de coleta e reaproveitamento de materiais.
Uma nova era para o setor
A proibição da destruição de estoques é parte de um conjunto mais amplo de políticas. Em setembro de 2024, a União Europeia aprovou o sistema de Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR), que obriga os fabricantes a arcarem com os custos de coleta, triagem e reciclagem de produtos têxteis. O ESPR também prevê um "passaporte digital do produto", que conterá dados sobre a cadeia produtiva e opções de reparo, facilitando escolhas mais conscientes para consumidores e empresas.
A Comissão Europeia já listou categorias prioritárias para requisitos de ecodesign nos próximos cinco anos, incluindo têxteis, que terão foco em produção com menor consumo energético e maior durabilidade. O objetivo final? Alcançar uma economia circular completa até 2050. Para Fernanda, "a descarbonização do setor e a implementação da circularidade são estratégias fundamentais para avançarmos rumo a uma indústria da moda mais responsável".
- Separe suas peças encalhadas e considere montar uma seção de "exclusividades" no brechó, destacando a história de cada item.
- Teste a ideia de parcerias com novos designers locais para reinterpretar peças antigas, criando uma coleção única e exclusiva.
- Invista em comunicação sobre a sustentabilidade do seu brechó, mostrando como você contribui para a economia circular e o meio ambiente.


