Marcas de moda não querem apenas vender roupas novas. Elas querem a segunda venda também
Marcas de moda estão se voltando para o mercado de revenda, buscando capturar o valor das roupas já usadas.

A real é que, por muito tempo, a moda foi sinônimo de roupas novas e tendências efêmeras. Mas, com o passar dos anos, as marcas começaram a perceber que há um mundo de oportunidades no que já foi usado. E não estamos falando de qualquer coisa: marcas como Zara, H&M, Lululemon, Levi’s e REI estão apostando suas fichas em plataformas de revenda, vendendo versões de segunda mão de seus produtos ao lado dos novos. Traduzindo: elas querem uma fatia do bolo que antes ia para eBay, Poshmark, Depop e The RealReal — e que gerou bilhões em vendas sem que elas vissem um centavo.
O Mercado de Revenda em Crescimento
De acordo com o Relatório de Revenda de 2026 da ThredUp, o mercado global de roupas de segunda mão deve atingir impressionantes US$ 393 bilhões até 2030, crescendo duas vezes mais rápido que o mercado de roupas em geral. Nos Estados Unidos, a revenda deve chegar a US$ 78,8 bilhões até o final da década, após crescer quase quatro vezes mais rápido que as vendas de roupas no varejo no ano passado.
Para os varejistas, a oportunidade vai além de apenas vender mais roupas. Com suas próprias plataformas de revenda, as marcas podem capturar uma parte desse mercado crescente e manter um relacionamento com os clientes muito depois da compra original.
“As marcas estão se esforçando para controlar todo o ciclo de vida da moda”, diz Shawn Grain Carter, professora de Gestão de Negócios de Moda no Fashion Institute of Technology de Nova York.
Ela ainda complementa que, ao operar suas próprias plataformas de revenda, as marcas podem criar uma nova fonte de receita enquanto fortalecem a lealdade do cliente. E, como Neil Saunders, diretor administrativo da GlobalData Retail, aponta, “se uma marca não está presente nesse espaço, está perdendo uma grande oportunidade”.
O Que Motiva os Consumidores?
Os consumidores mais jovens, especialmente a geração Z e os millennials, estão impulsionando essa tendência. Eles se sentem atraídos pela moda de segunda mão, pois isso se alinha com seus interesses em sustentabilidade e moda circular, além de ajudar a esticar o orçamento em tempos de custos de moradia elevados e dívidas estudantis.
Além disso, a revenda oferece uma vantagem competitiva para as marcas, permitindo que elas participem de um mercado em rápido crescimento enquanto reforçam seus esforços de sustentabilidade. Segundo Saunders, “você pode argumentar fortemente que está agindo de forma sustentável, pois não está incentivando o descarte de roupas”.
Como as Marcas Estão Entrando no Jogo
Nos últimos anos, várias empresas, como Trove e Reflaunt, têm facilitado a expansão das marcas nesse setor, oferecendo tecnologia, logística e autenticação necessárias para rodar programas de revenda. A Patagonia, por exemplo, lançou o Worn Wear com Trove em 2017, seguido por Levi’s, REI, Eileen Fisher e Lululemon. Zara também criou seu próprio mercado de Pre-Owned, focando em revenda, reparo e doação.
Mas não é só online que as marcas estão se movimentando. A Pacsun, por exemplo, expandiu seu conceito de segunda mão, PS Vintage, para 16 lojas nos EUA, após um lançamento online bem-sucedido. Urban Outfitters, por sua vez, está adotando uma abordagem diferente, lançando um programa de devolução no Reino Unido que oferece crédito na loja para consumidores que retornam roupas usadas.
Ainda assim, Saunders acredita que a grande questão é sobre controle. As marcas premium querem ter controle sobre como seus produtos são apresentados e a experiência de compra, mesmo que o mercado de segunda mão continue existindo em plataformas como eBay e Poshmark.
A Revenda Como Parte do Futuro da Moda
O que está claro é que a revenda não vai substituir a venda de produtos novos, mas sim complementar. Carter reforça que a revenda oferece às marcas uma nova oportunidade de se conectar com os clientes ao longo da vida da peça, em vez de encerrar o relacionamento no caixa.
H&M, por exemplo, prevê que a revenda se tornará uma parte maior de seus negócios. “Estamos expandindo o acesso a serviços de revenda e segunda mão para manter os produtos em uso por mais tempo”, afirma Sofia Måhlén, líder da equipe de Modelos de Negócios Circulares da H&M.


